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O (Des)gosto

O sol mostrava seu brilho como nunca através das janelas. Se prostrou frente à escrivaninha, e viu que os papéis respingados de café ainda estavam lá. Sujos de café e limpos de palavras. Apenas papéis e respingos. Nada de letras, palavras, sintaxes, paráfrases. Nada. Nenhuma de suas anotações estavam lá.
O não e o sim continuavam a vagar por sua cabeça, quando subitamente, dominado por um ímpeto violento, transbordado, jogou a xícara cheia de café contra a parede, como que para descontar . O barulho da xícara quebrando deu-lhe um imenso prazer. Olhou todos aqueles cacos no chão, amassou todos os papéis em cima da mesa. Com as mãos apertando a cabeça como se dela fosse sair algo, passou as mãos pelo rosto e correu para o espelho. Ficou por minutos ali, encarando a si mesmo em silêncio. Abriu a torneira e molhou as mãos. Molhou o rosto também. Secou-se. Não havia nenhum respingo.
Depois de acalmar-se e organizar os monstros, voltou à escrivaninha, sentou-se, pegou um lápis, um papel e começou a escrever desesperadamente, apaixonadamente, sufocadamente. O reflexo do sol batia nos cacos de vidro e Ella sussurrava baixinho: 'I walk the floor and watch the door, and in between I drink, black coffee...'. Os cacos continuaram lá, e em seus pensamentos: "nunca acertei tanto, tanto em acabar brutalmente com um desgosto".

A Recompensa

sábado, 31 de janeiro

Palavras saíam da ponta do lápis levemente dispostas a escrever uma história jamais escrita, como jamais acontecera. 'São as palavras que nos escolhem, não nós que as escolhemos', lembrou. E por um instante sentiu um acolhimento sincero, 'vieram para mim', pensou. Parecia que seus dedos nunca tinham escrito uma palavra que fosse. Escrevia com tanta sede, segurava o lápis com tamanha precisão, que o papel sequer ousou sair do lugar. A respiração ofegante esbanjava desespero, ansiedade, inquietação.
Emoções borbulhavam dentro de si. Os indícios de um arrebatamento emocional continuavam ao chão, refletindo os raios do sol que os iluminavam. Pouco se importava. Continuava a escrever e ignorava tudo ao seu redor. Só o que lhe importava naquele momento era o que sentia. 
Olhou por um instante para o chão, exatamente no momento em que um dos cacos ficou mais iluminado por um dos raios do sol que entravam pela janela, 'uma xícara a mais, a menos, que diferença faz? Nenhuma. Essas coisas que a gente ganha quando casa e ficam aí, pedindo para serem quebradas, bah. A única coisa faltosa é o café. Santo café que me acompanha sempre', resmungou em pensamento.

A Redenção

Ficou sentado ali escrevendo, ofegante, escrevendo, respirando, sentindo, e transpirando, durarante horas a fio. Não olhou que horas eram. Já havia notado que o sol já estava para se por. Sentiu seus músculos doloridos de ficar tanto tempo numa mesma posição. Largou o lápis, empurrou os escritos para o lado e espreguiçou-se. Levou os braços a cima da cabeça, esticou o tronco, estralou os dedos, o pescoço, esticou os braços, e respirou fundo.
Sentiu-se renovado. Ainda estava sobre o efeito das palavras que saíram de dentro. Levantou-se e espreguiçou-se novamente. E como uma redenção, pisou em cima de todos os cacos como se não estivessem lhe cortando. Foi andando em direção à janela e, ao se aproximar, pisou fundo nos cacos, fechou os olhos, e um grito pulou para fora. Respirou fundo.
Debruçado na janela, olhou para baixo e não havia ninguém na rua. Sua visão do décimo quinto andar não era muito favorável ao voyerismo, mas mesmo sob essas condições fez questão de  observar os pontos andantes a baixo.
Sentiu a vida. Encheu o peito de ar. Respirou e inspirou. Tomou fôlego, mergulhou em sua cama. Ficou ali durante minutos olhando para o teto e com os pés machucados para fora da cama. O sangue pingava. Começou a sentir a dor, retorceu os pés, mas não se importou. Ficou ali, quieto, sem nem ao menos lembrar da falta que a voz da Ella fazia. Virou para o lado, acomodou-se nos cobertores, fechou os olhos e dormiu profundamente. Acompanhado da solidão.